Pesquisas no Brasil procuram se reinventar

Para Pedro Lacava, Pró-Reitor de Pesquisa do ITA, sistema de financiamento da pós-graduação está saturado. Instituto vai apresentar alternativas e debater o ensino de engenharia durante a Mostra Tecnológica do EEF 2019

Em geral, as pesquisas desenvolvidas por mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos são financiadas com recursos de agências estaduais e federais de fomento, via bolsas de estudos e apoio a projetos científicos. Os dois principais órgãos federais de fomento à produção científica nacional são o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), ambos atuam com orçamento enxuto para atender toda a demanda nacional. “Nosso sistema de financiamento de pós-graduação está saturado. E a competição é muito grande hoje. Você abre um edital universal hoje, para financiar uma pesquisa de 30, 50 mil reais, tem uma concorrência enorme. Se a competição é grande para os recursos disponíveis, você tem de buscar de várias fontes”, explica o professor Pedro Lacava, Pró-Reitor de Pós-Graduação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA.

Projetos que oferecem alternativas de financiamentos capazes de manter a pesquisa científica funcionando sem depender tanto de sistemas como Capes e CNPq e que aproximem o pesquisador da indústria estão no cerne dos programas de pós-graduação do ITA que serão apresentados na Mostra Tecnológica do Engineering Education for the Future – EEF 2019, que acontecerá nos dias 23, 24 e 25 de maio no ITA, em São José dos Campos, interior de São Paulo. “A nossa ação de doutorado acadêmico dentro da empresa se comunica totalmente com esse momento que estamos vivendo. É um doutorado voltado para gargalos tecnológicos da indústria. É um projeto piloto do CNPq, algumas empresas já aderiram a esse novo modelo, são 10 projetos por enquanto, vamos abrir uma segunda chamada. A indústria tem demandas de pesquisa. Com esse nosso programa, a empresa complementa a bolsa dos alunos, que tem uma orientação conjunta de um professor do ITA e um supervisor da empresa, para resolver um assunto proposto pelo próprio mercado. Uma forma de a empresa financiar a pós-graduação e os nossos alunos estarem mais próximos de assuntos de impacto no setor produtivo”, apresenta Lacava.

A aproximação de profissionais ultraqualificados, como doutores, mestrandos e a indústria é um dos principais pontos de debate para os novos rumos do ensino de engenharia no Brasil. E só podemos classificar algo como inovação, quando essa ideia se transforma em tecnologia, algo prático que pode ser usado pela sociedade. “A pós-graduação ficou muito tempo formando pessoal para ela mesma. Ela forma mestres, doutores, que ficam dentro das universidades, dos institutos de pesquisa. Isso foi importante para o país, porque criou uma cultura de mestrado, doutorado, pesquisa, mas para isso gerar impacto para a sociedade, é preciso ter essas pessoas que estão se qualificando, também, junto às empresas. Este é o objetivo que visamos atingir. E é dessa forma que pretendemos contribuir com o desenvolvimento tecnológico do país, porque a inovação vai acontecer dentro da empresa. Se pegarmos um país que é forte em inovação, vou citar um clichê, mas dá para ver como o Brasil pode chegar lá: a Coréia do Sul. A Coréia forma o mesmo número de doutores que o Brasil, mas 85% desses doutores vão para as empresas. No Brasil é o contrário, menos de 15% desses doutores vão para o mercado. Não é só o engenheiro que deve ir para a indústria. O mestre, um doutor também precisam ir. Só assim vamos conseguir produzir em massa produtos de alto valor agregado”, exemplifica o professor Pedro Lacava.

Professor Pedro Lacava, Pró-Reitor de Pós Graduação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)

Para desenvolver esse programa de doutorado nas empresas, algumas resistências tiveram que ser derrubadas. Foi preciso alterar culturas, como fazer a indústria perceber que ela não estava apenas liberando seu funcionário para se especializar, mas o intuito deste profissional adquirir conhecimento e atuar em um problema concreto. Além de o custo-benefício de se investir no desenvolvimento de profissionais, frente a financiar uma pesquisa completa. Outra resistência estava dentro da academia. “Precisamos mostrar que essa relação com a indústria não faz com que você pesquisador, professor, esteja abdicando de fazer ciência. O paper que eu tenho mais citação foi feito dentro da indústria. Uma coisa não esta se opondo a outra”, lembra Lacava.

É preciso saber buscar recurso nas agências de fomento, assim como saber buscar o recurso no setor produtivo. As pesquisas aplicadas precisam se apresentar de maneira atrativa, para motivar o financiamento. É necessário demonstrar a capacidade de impacto para poder buscar esse investimento privado. “Hoje o docente precisa ser três coisas: um bom professor; tem que ser um cientista, um pesquisador, saber como conduzir um projeto; e, por fim, tem que ser um empreendedor. Tem que buscar recurso”, completa o professor.

Além do projeto de doutorado dentro das empresas, a Pró-Reitoria de Pós-Graduação do ITA também vai expor na Mostra Tecnológica – EEF 2019 detalhes sobre outros projetos, como o Programa Capes-Print, que pretende fortalecer o relacionamento de instituições de ensino e pesquisa brasileiras com instituições similares no exterior que apresentem relevante impacto internacional em pós-graduação e pesquisa. O ITA conta com 14 projetos no programa, que promove o intercâmbio internacional entre professores e alunos. O Capes-Print começou esse ano, 2019, e segue até 2022.

Iniciativas de apoio aos professores e pesquisadores também serão apresentadas na Mostra. Chamadas para projetos, com novos professores que ainda não estão credenciados na pós-graduação, para que tenham a possibilidade de co-orientar trabalhos. Também serão apresentadas maneiras de como o professor recém-chegado poderia atuar como orientador de projetos. “Essa foi uma maneira, também, de integrar a comunidade de professores”, diz Lacava.

Conexões entre as disciplinas é o principal signo da Mostra Tecnológica do EEF 2019. Professor Pedro Lacava ressalta essa intersecção. “Quando você tem a possibilidade de ver o que os outros estão fazendo e de expor seus projetos para os demais, geralmente nascem boas ideias. Às vezes, ficamos fechados em nosso dia-a-dia, em nossas pesquisas. Em eventos como esse, temos a oportunidade de trocar impressões com outros colegas que, por vezes, estão próximos e não compartilhamos as experiências”, diz.

A meta da Mostra – e do EEF – é justamente ajudar a TRANSFORMAR esses paradigmas. Afinal, os problemas atuais da engenharia são multidisciplinares. Não são problemas segmentados da engenharia aeronáutica, eletrônica ou civil. Para resolver, é preciso ter pessoas de diferentes formações dialogando. Esse é o objetivo central do Engineering Education for the Future, que irá debater a educação em engenharia no Brasil e, além da Mostra, vai contar com um grande fórum de debates e competições. Veja a programação completa no site www.eef.ita.br e se inscreva gratuitamente.

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