Projeto de metodologia ativa do ITA mira modernização do ensino

Programa piloto do Departamento de Mecânica estreita o relacionamento dos alunos com a prática e o mercado de trabalho

“O projeto surgiu de uma demanda, de fazer a revitalização de uma oficina que tem dentro do ITA, que conta com equipamentos que existem desde a concepção do ITA. Mas, a gente percebeu que era uma oportunidade maior do que mexer apenas em infraestrutura. Mais do que os equipamentos, atualizar a maneira de trabalhar o ensino dentro daquela oficina. Identificar quais são os métodos que estão mais associados a essa geração atual, que não consegue se concentrar por mais de sete minutos”, explica o professor Ronnie Rego, do Centro de Competência em Manufatura – CCM.

Nos debates sobre a necessidade de modernização dos cursos de Engenharia no Brasil, alguns tópicos que sempre são levantados passam pela necessidade de uma educação mais prática e próxima do ambiente profissional, principalmente através dos métodos de ensino baseados em projetos, capazes de estreitar a relação do aluno com o mercado de trabalho e, também, renovar sua conexão com a profissão. Tentando resolver esse problema e apresentar uma sugestão de modernização do ensino, o Divisão de Engenharia Mecânica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – o ITA – criou um projeto de Metodologia Ativa. Para preparar um profissional para a Indústria 4.0 somente com uma Educação 4.0.

Viabilizado pelo ITAEx (Ex-Alunos Apoiando o ITA), o projeto de Metodologia Ativa do Departamento de Mecânica utiliza o processo de aprendizagem baseado em problemas, project based learning (PBL), que tem como propósito fazer com que os estudantes aprendam através da resolução colaborativa de desafios. Esse tipo de desafio incentiva a habilidade de investigar, refletir e criar perante a uma situação – e utilizando o equipamento disponível na oficina do ITA. “O aluno não pode ir lá mexer no torno por mexer no torno, apenas. Ele precisa ter um desafio associado. É o aluno comprar um problema e resolver via usando o torno, a fresadora e a furadeira – mas o equipamento é somente habilitador, o que conta aqui é a filosofia. Em um espaço de um mês, ele encara o problema, vê teoria, vai para a sala de aula motivado, porque sabe que tem esse desafio para resolver. Que pode ser um problema da vida real. E não só na sala de aula, mas em contato direto com a sociedade”, completa o professor Ronnie.

Professor Ronnie Rego: “Esse é um projeto piloto que pode engendrar uma proposição de mudança

Esse contato direto com a sociedade proposto no projeto, claro, ultrapassa as salas de aula ou a oficina do ITA. Para a semana de exames finais, por exemplo, será promovido um hackathon, onde especialistas de uma grande empresa brasileira lançarão desafios para que os alunos resolvam em 12 horas. Ao final, a evolução desses alunos na resolução do problema será avaliada por essa banca de profissionais. Metodologia ativa, prática e atuação próxima com o mercado: itens fundamentais para a formação do engenheiro 4.0 reunidos em uma grande atividade.   

“Esse é um projeto piloto que pode engendrar a proposição de um plano de mudança. O fim desse projeto é a mudança. E uma parte é a metodologia ativa em aula. A outra parte é uma interface entre as aulas”, conta professor Ronnie. Intersecção entre disciplinas é outro signo importante na transformação do ensino em Engenharia. Por isso, o projeto de Metodologia Ativa do Departamento de Mecânica é uma criação conjunta, desenvolvida por 14 professores.  “Não queremos utilizar a oficina somente para a fabricação, mas criar uma oficina de fabricação que avalia os conhecimentos de diversas disciplinas. Termodinâmica, por exemplo, é um fenômeno natural do processo de fabricação. Nós temos uma disciplina de vibrações. Quando eu vou fresar uma peça, gero uma porção de vibrações. Quais são os sensores sobre o equipamento que devem existir, para que aquela oficina sirva para fazer experimentos transversais na emenda? Por isso, as atividades ou os desafios propostos podem dar notas para duas ou mais disciplinas”, avalia Ronnie.

Está nos planos do professor Ronnie Rego entrevistar todos os professores da Mecânica e descobrir como eles trabalhariam com metodologias ativas e como seria possível que as disciplinas deles se conectem com a Manufatura. Com esse mapa de conexões que será traçado após essas conversas, o plano de revitalização da oficina será desenhado. E como utilizar essa estrutura para aplicar desafios que preparem os alunos para atender as demandas atuais da indústria.

Até o momento, as partes já envolvidas no projeto de Metodologia Ativa aprovaram a iniciativa. “A ideia foi muito bem recebida pelos alunos e pelos professores. O pessoal está empolgado, sugerindo ideias, isso é muito bom. Também é ótimo para as empresas que têm uma visão de longo prazo. Essa empresa sabe que, se eu levar um aluno daqui para fazer um processo de imersão, por exemplo, sempre que esse aluno pensar em um projeto que tiver a ver com aquela empresa, durante toda a vida, vai lembrar daquela imersão e daquela empresa. E essa força de imagem é muito importante, porque esses alunos de hoje são os futuros tomadores de decisão da nossa profissão”, reforça o professor.

E é justamente a integração de diversas áreas do conhecimento que norteia a Mostra Tecnológica do EEF 2019 – Engineering Education for the Future, que acontecerá nos próximos dias 23, 24 e 25 de maio no ITA, em São José dos Campos.

A proposição de diálogos entre disciplinas e institutos de pesquisa são conceitos caros aos curadores da Mostra e preceitos importantes para a modernização do ensino da Engenharia. O projeto de Metodologia Ativa do Departamento de Mecânica, claro, estará presente, mirando o futuro da profissão.